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sábado, 20 de agosto de 2016

Marias de Mim

Foto: Amanda Charchian


Muito prazer, eu sou Maria. Maria filha de Maria, mãe de deus, Santa Maria, a Virgem. Depois de seu primogênito, ela teve outros rebentos: Tiago, José, Judas, Simão. E teve também muitas filhas. Eu sou uma dessas filhas, anônima, nascida de uma ex- Virgem Maria por vias profanas: a saia levantada sem permissão, o coito rápido e o jato do gozo aliviado de um José indiferente. Passado o tempo, nasci – do pecado, como as demais. Não fui a escolhida de deus para mudar o mundo mas, se ainda assim eu consegui mudá-lo, você não sabe e nem saberá: meu nome não merece citação entre os versos sagrados.
Muito prazer, sou Maria da Graça – sou ela, menina, que vem e que passa, num doce balanço a caminho do mar... Musa muda de canções e sonetos, modelo em pinturas e folhetos, cartazes e comerciais. Maria da Graça faz graça de graça, e a sua desgraça a revista não conta: Maria da Graça: junto! Maria da Graça: quieta! Maria da Graça: senta! Rebola. Senta, senta, senta, mexe, desce, sobe, rala, remexe, sacode a bundinha, sacode a bundinha, faz graça, Maria da Graça, me abraça, merece um carinho!
Muito prazer, sou Maria das Dores. A culpa é de Eva que quis conhecer, que quis entender, esse foi seu pecado marcado e rasgado na carne e no sangue: parirás com dor. É esse o castigo, essa invenção fajuta? Eu gero no ventre uma vida e sinto mexer o amanhã dentro da minha barriga – criar alguém vinda de costela é para os fracos! E na hora do parto eu grito, me mordo, contorço os pecados, eu sangro e percebo: a dor não me machuca mais! E canto, e danço e no auge do esforço pra parir a criança só penso: chupa essa, deus: Eva e eu estamos rindo, estamos rindo da dor! Em nossos braços um rebento morno nos mostra que dentro de nós cabem todas as auroras. E vocês realmente pensaram que temeríamos a dor? Vencemos, Eva, obrigada, Eva, obrigada!


Muito prazer, sou Maria. Maria Aparecida, não: Maria des-aparecida. Violada, rasgada, torturada e expulsa dos livros de história. Gritei contra as ditaduras, clamei por um novo mundo, implorei misericórdia dos torturadores mais cruéis. Consta nos autos: desaparecida. Mas vocês não esperavam, caros algozes: eu estou aqui. Eu não morro. Ainda luto nas lutas inglórias, nas brutas vitórias dos punhos erguidos ao longo da história. Eu sou a história. J'accuse! A verdade está a caminho, e nada a deterá.
Muito prazer, sou Maria do Socorro. Maria que pede socorro, na cozinha, no chão, na casa do cachorro, na chuva, em silêncio, gritando nos morros. Sou Maria, cicatriz e olho roxo: caí da escada. E você finge que não vê, aumenta o volume da tevê quando eu peço socorro sem poder, quando eu grito sem falar, mas eu grito, grito.
Muito Prazer, sou Maria dos Prazeres. A Maria que goza, a Maria que dá, a Maria que come e que sabe como se faz. Maria sem-vergonha, Maria vai com as outras, e com os outros, e com quem quiser, ao mesmo tempo, quem sabe. Sou dada, rodada, maldita e fadada ao amor. Sou a Maria que se toca, que te toca, que morde a boca, Maria louca, Maria louca!
Muito prazer, sou Maria Baderna, eterna, estrangeira, dançando na rua, aprendendo batuque, fazendo umbigada, criando bagunça pela liberdade, causando alvoroço, desejo, desordem. Sou um vírus degradando as mentiras das falsas madames.
Muito prazer, sou Maria Padilha. Você tem medo de mim? Pombagira girando, fazendo feitiço de saia vermelha, se olhando no espelho, bebendo champagne, comadre, cigana contando faceira seus sete punhais: vai se meter com Exu-fêmea?
Muito prazer, sou Maria, Maria dos Santos, Maria Pereira, Maria do Rosário, da Consolação, de Perus, de Guaianazes, Maria da Penha. Sou Maria, ave Maria que voa, faz ninho, revoada, migra e retorna, ave, ave Maria eu sou! Maria-Maria, Maria Alegria, Maria de luta, Maria Coragem, Maria Maré, Maria Festeira, Maria branca, preta, amarela, sou Maria, prima, filha, mãe, mas não, sou também Maria apenas, Maria tudo isso, Maria de Maria por Marias com Marias.

Maria(s) somos. Muito prazer.

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