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sábado, 20 de agosto de 2016

Cuidado: Inflamável (o poema)





Ela merece!
Ela merece!
Ela merece!

Obrigada, obrigada e obrigada! Antes de mais nada, agradeço a deus e à costela roubada que ele me cedeu para que hoje eu pudesse estar aqui. Agradeço a família, a escola, a mídia, ao Estado e, claro, a polícia, enfim, a todos aqueles que me ensinaram a ficar calada e me manter assim. Obrigada, obrigada!
Afinal, eu mereço.
Aos quinze anos mereci ser revirada pelo avesso, violada e estuprada por um sujeito possesso, e o alto o preço que paguei foi o meu viço e o silêncio, e esse grito que emudeço quando olho no espelho e quase não me reconheço. Por tudo isso eu agradeço e, sem modéstia, confesso que mereço.


Em nome de Maria, uma moça que conheço, agradeço ao sujeito que enfiou as duas mãos entre suas pernas dentro de um cinema cheio. Ela tinha quatro - quatro - anos. Graças a esse ele, nunca mais saiu de casa com um vestido tão curto. Graças ao susto ela entendeu o seu recado: "meninas como eu precisam tomar mais cuidado."
Agradeço também ao cavalheiro que durante o costumeiro trajeto de Luci, minha amiga, para casa, abriu a calça e sem disfarce masturbou-se ao lado dela. Ela não gritou e ele concluiu que a devassa estava mesmo era gostando da homenagem. Obrigada ao galante passageiro que alegrou sua viagem! Ela merece!
Afinal, ao que parece, nem todas merecem ser abusadas pelos canalhas. Assim diz o deputado capitão engravatado Bolsonaro que a cada palavra sua estupra a luta e chuta a dignidade de todas as mulheres. Ostentando a farda, o calhorda lambe as botas de burgueses canalhas enquanto medalhas de sangue reluzem sob o seu terno, e arde sob a sola dos seus sapatos o inferno dos famintos e torturados.
Cada palavra sua é um estupro.
Digníssimo deputado, será que preencho os requisitos do seu infame manual para ter a honra de ser estuprada pelo seu falo liberal? Sou bonita o suficiente para ser amarrada pelas mãos ensanguentadas do capital? Rebelde o bastante para ser castigada como tantas mulheres violadas em celas escuras nos porões da ditadura que o senhor tanto admira e suspira de saudade?
Mulheres não geram apenas filhos: geram Amanhãs. E os martírios e silêncios fecundarão em nosso ventre um rebento de luta - por um tempo em que haja vida, não labuta. Você e sua corja vendida e fajuta vomitarão nesse dia o desespero pelo fim da dinastia dos porcos. E aos poucos, caro deputado, faremos das chamas onde fomos queimadas uma fogueira encarnada que tomará o mundo inteiro: o fogo rubro de um novo Outubro que fará de Bolsonaros e parasitas apenas cinzas perdidas no esquecimento.

Morremos queimadas nas fogueiras da Inquisição, mas renasceremos livres no fogo da Revolução.

3 comentários:

  1. Oi, Isabela. Não vou fugir ao lugar-comum: bela página, a sua. Estou seguindo. Me-visite também. Abração.

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  2. Isabela, tão distante noutra terra,te encontro aqui no mais profundo... Forte, ressoando dentro... Saudações, Carol.

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  3. Seus textos são de uma beleza ímpar!
    Esse rasga, queima, cospe... com muita elegância e poesia!

    Abraços =)

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