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domingo, 14 de junho de 2015

necropsia do dia de ontem

tem dias em que a gente sente inveja de um pé de alface. sente inveja do cabelo do ralo, da poeira, inveja de tudo o que não precisa ser.
tem dias em que a gente quer tecer com a dor um casulo e só sair quando puder voar. dias em que se está cansado de rastejar.
tem dias em que a gente só quer que a cabeça vire uma bexiga azul, para desamarrar a ponta e sentir esvaziar, murchar, até ser esquecida e varrida no chão da festa.
tem dias em que a gente é vagão que descarrila. peça solta de um brinquedo de pilha. espécie banida da arca a esperar pelo dilúvio.
tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu no topo de uma roda gigante veloz e iluminada que é a cidade.
dias em que as lágrimas só escorrem para dentro e se alojam em algum lugar entre a garganta e o estômago, se aglomeram formando um órgão dolorido e pulsante como um segundo coração.
dias em que não se estanca os pensamentos e as dúvidas vão sangrando pelos poros a cada arrepio de frio.

dias em que não se sabe se esse barulho ensurdecedor vem de dentro ou vem de fora. se esse silêncio triste vem de dentro ou vem de fora. se essa melodia insistente é memória ou surgiu agora para fazer trilha ao seu quieto desespero. se essa palavra impronunciável é a chave do teu mais íntimo e decisivo mistério.
dias em que o vento do fim da tarde arranca toda a pele do corpo e de repente a gente é isso, carne, músculo, nervos expostos às variações do tempo, do clima; a ferida exposta do que a gente é.
tem dias em que a vida é como uma fruta bonita e suculenta que a gente morde e descobre que tem um bicho dentro. dias em que a gente é essa fruta bichada e sente alguém devorando e sorvendo nossa polpa escassa. dias em que a gente é esse bicho desprezível e invasor triturado por uma boca enganada e sedenta.
tem dias em que a criança que a gente foi se desespera quando nos vê através do espelho. dias em que diante do espelho cresce inteiro um fio de cabelo branco e se abre no rosto uma ruga profunda  que é, na verdade, a cicatriz tardia de alguma ferida passada.
dias em que o nosso mais puro ateísmo reza. a nossa  fé mais cega descrê. e a gente cai nesse vão.
dias em que a solidão é um lugar, nosso nome é um verbo numa língua morta, e o dia é pago com a própria vida. a noite não chega nunca, nem nunca vai embora.
mas, tão imprevisível quanto aguardado, chega o instante inesperado em que grita dentro da gente um desejo invencível de porvir: os olhos  abrem num susto. pega-se a faca debaixo do travesseiro e, sim, rasga-se o véu turvo que cobria o esplendor da manhã. uma fresta de luz invade o quarto e, insones, pupilas enormes, os olhos a contemplam como se fosse o primeiro sinal de vida sobre a terra. navegando por ele, a gente amanhece com a aurora - sem recordar o dia que passou, sem desconfiar dos próximos dias duros que virão, só porque dentro daquela estreita faixa iluminada não importam os dias que já foram nem os que hão de vir, não importam os dias.

Um comentário:

  1. Pancadão, bate fundo na alma, nos poros, no mais profundo da essência: a dor da condição humana descrita de forma ácida, imperiosa, impiedosa, exata! Parabéns, Isabela, você é fantástica, sucesso!

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