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sábado, 18 de janeiro de 2014

Do Coração Imortal


Kiva Ford

E quando você pegou e beijou meu coração todo costurado e pisou nele? Quando você pegou e disse: basta. E aí mordeu e mastigou um pedaço dele. Né? Você não lembra. Que usou ele de pedra de estilingue pra me acertar quando eu passei na tua rua. Que eu mandei ele via sedex e você disse que não morava ninguém lá com o seu nome. O pacote voltou todo manchado de sangue. Até o carteiro achou uma crueldade. Quando você puxou o fio do meu coração que eu passei seis anos tricotando. Quando você falou baixinho o meu nome pra ele, e passou uma hora inteira me caluniando. Ele acreditou em tudo e foi-se de mim. Ficou um buraco doído no lugar. Você não se lembra. Que você pegou e riu e enfiou o dedo no buraco e foi mexendo, cutucando o vazio até sangrar. Não lembra. Eu sim, que doeu. E quando você cuspiu nele e disse: meu amorzinho. E eu fui com você. Você cortou ele com garfo e faca e fez de mistura na tua comida. Ele gostou. Mas eu tive fome enquanto via você se fartar: nem nada você me ofereceu.
E nem lembra. Né? Você sambou uma vez em cima dele no meio da roda, todo mundo viu e riu meio sem graça, de tanta pena de mim. Você não quis parar. Olhou pra mim e disse: essa é a nossa música. Quando ele bateu pra você, você pegou e deu um soco na mesa e gritou: chiu! Ele começou a bater baixinho e se fingir de morto. Ele finge de morto muito bem. Né? Aí você pegou ele nas mãos, fechou bem, abria vez em quando pra dar uma espiadinha, dizia que estava cuidando: pra não perder. Né? Ele ficava sempre ali. Mas teve um dia que você pegou e pôs ele no bolso, e daí esqueceu. Você foi e trocou de casaco, guardou no maleiro porque veio o calor, e ele lá. No inverno seguinte você ficou feliz que ele tava lá, junto com uma nota de vinte que você tinha esquecido. Que engraçado. Né? Quando você cobriu ele de noite pra não passar frio. Foi bonito. Mas você não lembra. Que eu rasguei o peito e arranquei ele de mim sem gritar e te disse, cochichando, assim: toma. E você demorou pra pegar. Eu disse: pega. E você olhando. Mas acabou que você pegou. Não sabia que fazer com ele. Aí eu amarrei ele no cadarço do meu sapato e prendi no seu pescoço. Era pra ser um gesto poético. Era pra você fazer ele de amuleto, como fazem nos filmes. Mas você só usava quando combinava com o teu vestido. Cada vestido bonito que você usa. E quando você cansou e me disse: toma. Eu: não precisa. Você: toma. Eu: não quero. Você: toma. E eu saí correndo. Você queria devolver porque ele não combinava mais com nada. Né? E além do que, ele tava enferrujado e interrompia a tua beleza. E teve um dia, lembra?, que você pôs mertiolate nele? Ardeu muito, você não lembra, que aí eu agradeci e morri de alegria achando que ele tava curando. Mas nada. Ele ficou ardendo e sangrando pelo corte aberto, até hoje.

Um comentário:

  1. Acabei de te aceitar como amiga no FB e já tô aqui fazendo bagunça no teu blog, Isabela.

    Sério, agora: você escreve muito, dona moça. Voltarei com mais calma.

    Bjs

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