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sexta-feira, 31 de maio de 2013

Morte Prematura de uma Dúvida

O coração gaguejava lamentos sob o sol a pino. A garganta seca não podia mais. Os balbucios perderam-se pelo caminho. O coração gaguejava sob a solidão a pino – abandono que queimava a pele, rachava os lábios. Era assim. Um homem só neste mundo de milhões.
O coração gaguejava sobre a terra rachada, a boca rachada calava, a garganta seca rachava no silêncio. No estômago só a mágoa que engolira, a raiva que engolira e uma úlcera dolorosa – na falta do alimento, o órgão devorava a si mesmo. No intestino, vermes. Na falta dos restos que a vida lhe negara, que então outras vidas inermes se alimentassem de sua polpa escassa.

O céu sem nuvens, sol e solidão a pino. Tudo em volta era uma fogueira, ele era a lenha, um homem tão só neste mundo de milhões. Ali era tudo faminto e seco. No ventre da terra vida nenhuma vingava.
Não muito longe dali havia abundância de rios e águas, abundância de sabores e prazeres, ele sabia mas nem desconfiava. Abundância para poucos. Quem entende este mundo de meu deus – perguntava sem perguntar. Ele não entendia. Não muito longe, poucos se abundavam; mas não muito longe para homens como ele era longe demais, era outro mundo, mas era o mesmo. Estrangeiro ele era na vida. Não podia entender o sentido de se nascer para a falta. Mas então por que deus fazia isso? Nele algo perguntava. Criar gente pra viver pior do que os vermes, que ao menos se alimentavam da sua polpa – escassa, é verdade, mas havia. Criar gente pra se arrastar em dores e ausências lambendo o pó da terra. Se deus soube um dia o que faz, tinha já se esquecido no meio desse caminho em que ele tão só agonizava - ele pensava sem perceber.
Um homem de coração gaguejante neste mundo de milhões. A paisagem tinha vergonha dele. O coração gaguejava: como ele, não sabia bem as palavras. Mas queria dizer. Para quem? Talvez só para fazer eco no sertão de fome, ouvir-se para ter-se certeza. Porque às vezes se chega a duvidar do existir, pode ser que eu seja só uma dor – ele pensava sem saber. Uma dor nascida desse pulso indeciso e gago do coração de um homem que nasceu e morreu só em um mundo de milhões.
(A última coisa que ferveu no peito dele foi a dúvida. A dúvida em perguntas mal formuladas pelo escasso vocabulário. Mas quantas, quentes, fervendo mais que o sol impiedoso daquele dia último.)


Um comentário:

  1. os vermes da mágoa em gaguejos e pragas me devoravam
    faltava engolir as sobras de minha solidão e de meus caminhos não-percorridos
    restos de raiva na terra dos pinotes e capotes de morte
    vida engolida com saliva na boca abandonada e primitiva

    faltam-me vermes neste resto de vida
    mágoa engolida raiva engolida
    boca gagueja cacareja boceja restos de terra adubada (palavra)
    perdeu a solidão abandonada num pinote
    perdeu o caminho num capote (prematura morte)

    raiva da vida?engula o resto
    falta perdoar as mágoas os vermes engolem
    a boca banguela da raiva engole terra
    se sobra mágoa engula seu gaguejar
    abandone esta terra e dê pinote com a boca
    se perder o que sobrar gagueje solidão
    no pinote:prematuro no capote:abandono
    no caminho dos prematuros (sem futuro) a solidão me capota

    dúvida é queimadura e rachadura na úlcera da negativa
    lamento pela pele cortada em dolorosa via crucis
    lábios solares em outras faltas a garganta cortada
    assim sol a pino e alimento seco sem cor sem sabor e sem vida

    então você negara ajuda a outras vidas?
    úlcera dolorosa falta de alimento
    garganta seca,pés rachados
    queimadura na pele e lábios machucados
    dúvidas e lamentos,sol a pino

    inermes órgãos rachavam a carne do homem sem garganta
    devora em silêncio nesta seca este alimento
    a mesma polpa podia estar agora em seu estômago
    só balbucios do coração só a escassez no intestino

    escassa a polpa e alimentos inermes
    órgãos devorados no mesmo intestino
    o homem e o silêncio do seu estômago
    neste mundo sem coração uma garganta cortada
    eu podia balbuciar na seca (cruel destino)
    a mesma escassez da polpa ao intestino
    inermes e enormes devoradores alimentando-se de meus órgãos
    intestino ou estômago são sempre os mesmos sofredores
    devorava e rachava em silêncio os órgãos
    só pode ser coisa de um mundo sem coração.

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