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segunda-feira, 16 de abril de 2012

A Peleja do Primata ou Para que Servem os Diamantes?


Era um presente do dono do mundo –
o Dono das Palavras:
dava-lhe uma
e esperava,
dava-lhe duas,
esperava.
dava-lhe três,
esperava.

O Dono das Palavras esperava uma transformação.
Que as palavras o fizessem um pouco menos bicho.
Que as palavras o fizessem um pouco mais gente.
E assim ele, Dono das Palavras,
ganhasse títulos e honrarias
pelas novas descobertas da ciência.
Evolução.

O gorila aceitava os presentes – palavras
como se fossem diamantes.
Mas não sabia onde incrustá-las
Não sabia que fazer com elas.

A poesia do mundo atravessava suas retinas
revolvia os seus músculos
fazia morada no seu coração de gorila.
Mas dele não saíam preciosidades
fonemas,
sílabas,
sentidos.
Nele a beleza era imagem.
Seu peito era estéril de palavras.

O homem, Dono das Palavras,
deu-lhe mais um diamante
e esperou.
Esperou.
O gorila, piscante, olhos arregalados,
fez um gesto.
Sobressalto.

Catou as palavras-diamante
cuidadosamente.
Apertou-as em suas mãos retintas
um presente.
Enfiou-as na sua boca primata
uma a uma.
Mastigou curioso os fonemas, as sílabas, os sentidos.
Sentiu correrem até o estômago
dilacerantes.

O Dono das Palavras esperava.

Mas o gorila não arrotou poesia.
As palavras jaziam dentro dele.
E ele nem podia chorar.

O Dono das Palavras estava decepcionado.
Palavras, diamantes, preciosidades
Inúteis.

O gorila fez um gesto
e outro. Observou tudo.
Soltou os sons que sabia.
E contou muitas coisas sobre as coisas
sobre os homens e os bichos
e sobre tudo o que brotava dentro dele
na terra fértil do seu peito
com o adubo das palavras.
Mas o homem, Dono das Palavras,
já não olhava para ele.
O Dono das Palavras
não queria sons de bicho
nem gestos de bicho.
O Dono das Palavras queria coisas de gente.
Esperava palavras, diamantes.
Esperava.
Esperava.

(No coração do gorila
também mil diamantes esperavam.)

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