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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Maria das Dores

O choro estridente da menina estava atordoando. Duas horas com essa campainha soluçante na cabeça. Esta fila não anda, meu deus. Balance a menina para lá e para cá, balance a menina, balance que ela para, sabedoria milenar. Mas que merda esta sandália, que merda, está me ferrando o pé inteiro. (No caminho dali até sua casa ela estaria com os pés lotados de bolhas, bolhas cheias de líquido, e então estouraria cada uma com uma agulha de costura quente do fogo.) Maldita menina que não cala a boca. Mas se eu pudesse também gritava assim e nada me calava. O outro estava dormindo no carrinho de bebê surrado que ela balançava, balançava, balançava com a outra mão, sabedoria milenar. Esta dor de cabeça deve ser de forçar a vista, estes óculos já não prestam para mais nada, estou ficando velha, meu deus, velha. Ontem eu tinha vinte anos e agora a hipermetropia, a barriga uma pelanca só, e a vontade de jogar essa menina na parede. Eu não fiz nada, uma saudade eu tenho do que eu nem vivi. Eu poderia ter sido tudo o que eu quisesse, só bailarina que não, não, eu não tenho corpo para isso, eu poderia ter sido qualquer coisa, em que parte do caminho eu... por que foi que eu me casei, onde eu estava com a cabeça? É uma merda, isso é uma merda. Nem meu nome agora é meu, eu odeio "Oliveira", "Oliveira" não combina comigo. Isso me mata, isso tudo me mata e eu nem sorrio mais há tanto tempo que eu não sorrio, me mata.

 E essa merda de menina que só grita, eu não escolhi, não escolhi nada disso. Ela me pesa, pesa, minhas costas envergam para agüentar o peso desta coisinha que nem ao menos me dá um minuto de silêncio. Mas se eu pudesse gritava assim e nada me segurava mais, ia correndo e gritando, balança, chacoalha, balança a sabedoria milenar que não está adiantando de nada nesta maldita fila que eu nem me lembro mais para o que é. Meus pés ardem nesta maldita sandália barata. Mentira, eu ardo, ardo, meus pés ardem, o cocuruto quente, o nojo do suor da menina, a roupa cheirando a leite azedo. Quente, quente, eu ardo. Ela vai vomitar, não acredito, meu deus, não acredito, as pessoas na fila vão ter nojo de mim. Onde eu estava com a cabeça. Preciso tirar aquela torta da geladeira, aquilo já azedou, está vencido. O que venceu está vencido. Venceu. Assim eu venci, passada, azeda, este cheiro. Eu ando esquecida, semana passada o purê estava na geladeira com fungos de todos os tipos, criando pelos, eu não estava mais nem sentindo o cheiro de podre no ar – deve ser este cheiro azedo que tapa meu nariz, não lembro mais nem do cheiro que era o meu, eu tinha um cheiro que era só meu. Daqui a quinze dias é aniversário dele, dou-lhe umas gravatas baratas outra vez. E umas cuecas. Ele está precisando. Ele engordou. Eu gostava dele? Gosto? Pra que é mesmo esta fila maldita? Ótimo, eu agora ensopada de vômito, leite duas vezes azedo, tanto faz, tanto faz. Coitada da menina, ela nem desconfia de que merda vai ser a vida dela, se ela soubesse da missa a metade aí é que não parava mesmo de chorar. Se alguém estivesse aqui comigo eu lhe diria isso e lançaria um olhar de cumplicidade, se fosse mulher, e riria. Mas assim sozinha, assim sozinha pensar nisso não dá vontade de rir. Dá vontade é de afogar essa menina nalguma fonte do caminho. Coitadinha, coitadinha. Tem os meus olhos a danada. Sapato precisa ser de couro, vou juntar dinheiro e comprar uma sandália que dure mais e não deixe a sola dos pés pretas assim. Esse calor, eu ardo, ardo. Ainda bem que o menino está dormindo, seria demais para mim. Uma hora e meia de fila e eu já não me lembro mais para quê. Não enxergo a senha, eu preciso de óculos novos. Eu devia fazer um curso, ser alguém, ser alguém, trabalhar num emprego mesmo, assim não me desesperava com esses imprevistos. Maldita menina, não pára. Os meus olhos. Minha cabeça dói, essa menina me dói o ventre, e esse nó me dói o peito e sufoca, esse tempo perdido na fila, na vida, me dói, me dói a barriga redonda do meu marido, me sufoca a gravata que eu lhe dei, dói no meu pescoço, as costas latejam do peso da menina, do peso de tudo, dói essa vida tão comprida, tão mal cumprida, dói a marca destas alças, meus ombros têm finas marcas roxas, meus peitos doem do leite que quer sair, é sangue-leite que me dói, e os mamilos só agora estão cicatrizando das mordidas, tudo dói, tudo dói. Nunca serei a próxima. A menina não vai parar de chorar pela vida inteira e isso nem vai perturbar o sono do homem que dormir ao seu lado. E ninguém vai me chamar para sair desta fila, desta vida, desta saudade doída que eu não entendo e nem sei de quê.

Um comentário:

  1. Oi!
    Nesses "passeios" mundo virtual a fora, tropecei no seu blog e gostei muito do que vi por aqui!
    Parabéns pela forma com que dá vida aos sentimentos através das palavras!
    Seguirei e voltarei!
    \o/

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