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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Técnicas avançadas para buscar inutilidades no entulho

Chamava-me todas as tardes. Eu aparecia esbaforido, ele sugando uma sopa barulhenta. Até nesse barulho parecia se arrastar o seu sotaque português. É engraçado, quando só se sabe uma coisa sobre uma pessoa, essa pessoa fica sendo só aquilo em cada gesto. Ele era o velho português, sempre velho e português em tudo o que fizesse. A sopa barulhava e ecoava dentro da minha barriga - refeição repetida das tardes todas da sua vida de velho, nunca oferecida e jamais pedida. Isso me deu um repertório inteiro de sabores imaginados, que pululam ainda agora na tentativa de adivinhar o gosto da sopa rala e perfumada. Sobre o prato, em meio a uma fumacinha saborosa, a sua cara de quem não é pai nem filho, de quem é só, por natureza e vocação. Estendia-me uma moeda e eu pegava disfarçando a avidez. Àquela moeda equivaliam quatro ou cinco figurinhas.
Terminava a sopa e caminhava comigo até algum dos terrenos baldios dos arredores, onde se sentava num pequeno banco de armar, um assento de madeira que carregava por toda parte, e observava meu afinco na realização da tarefa: catar pelos entulhos todos os pregos que visse, todos os pregos possíveis. Também servia parafuso e qualquer pequenice de metal. Eu ficava uma ou duas horas catando pregos nos terrenos baldios em troca de mais moedas em quantidade que variava pelo número de pregos.
Não era tarefa simples, porque prego não é coisa que brilha, é coisa que se mistura fácil com matérias um pouco inúteis. Mas depois o que acontece é que os olhos são atraídos pelos pregos, como se eles florescessem em cores nas ruínas. Você não pode ir procurando nos centímetros de chão. Tem que olhar para o chão de restos como para um grande horizonte, como se os olhos não vissem partes, mas vissem sim um mar inteiro. E então o entulho todo forma uma coisa bela e se abre, conquistado. É como se agradecesse porque não foi visto como é, porque se viu nele outras coisas. Não que se perca uma dor de abandono do lugar assim baldio, mas se cria uma amizade mesmo ali entre os pés e os acidentes de lixo, entre os olhos e aquela riqueza não explorada, aquela riqueza de coisas que ninguém quer. (Um pouco como era o velho, tão português na sua solidão. Passava-se assim por ele, velho sempre velho e português, sem nunca vê-lo com olhos de horizonte. Ele esperava.) Apertando um pouco os olhos, o que se quer brilha, reluz sem cor, como seduzindo. E aos poucos as matérias de interesse ficavam vivas, pipocavam ali, no entulho fértil.
Sendo assim, em algumas semanas eu já possuía até que uma porção orgulhosa de moedas. Minha mãe desconfiou, falou num tom de razão que não era possível que alguém são pagasse tanto por parafusos enferrujados e pregos já curvos de uso, e me disse em tom pouco definitivo que tratasse de parar com esse serviço de doido. Evidente é que continuei o serviço de busca ávida por moedas disfarçadas de prego.
O velho português, que não arrastou seu nome para minha memória, tinha uma expressão, um cair de sobrancelhas e uma curva dos lábios, um nariz de abas móveis, umas orelhas esticadas do tempo, uma expressão que me convencia de que para ele não se podia fazer perguntas. Nosso diálogo era entre o barulho da sopa e o roncar do estômago, entre o tilintar dos pregos e o tilintar das moedas, entre os passos largos e lentos dele e os meus saltos ofegantes de menino. Uma conversa que transcorria serena durante as horas em que não exigíamos mais nada. Sendo tudo dessa maneira, continuei buscando as peças de valor duvidoso e de utilidade a se pensar, sem ousar esclarecer as dúvidas.
Antes que se pense que ele era um velho explorador da minha agilidade de menino, vigiador de minhas distrações, esclareço que nunca me pareceu que sentasse no banquinho de armar para vigiar as preguiças e preguices várias. Parecia-me sempre que a intenção era compartilhar a tarefa, como parte da sua rotina portuguesa de velho, mas que seu corpo não podia mais do que observar a catança. Seu olhar procurava os pregos junto com o meu, e algumas vezes ele apontava alguns que eu imediatamente pegava, entendendo que sua coluna não mais se dobraria. Creio que ele deve ter desempenhado a tarefa até o limite de sua escassa agilidade, até que o limite se fizesse inteiro nele. Já o conheci como um velho de pouca massa, um senhor ensimesmado e pequeno que parecia nunca ter chorado – e esse choro coagulado ficava perambulando nos seus olhos sempre úmidos e baços.
Onde paravam aquelas inutilidades, aquelas ferrugens? Devia ele vendê-las por muito mais do que as moedas que me dava. Ou quem sabe dentro de sua casa sombria haveria um quarto enorme repleto de pregos, montanhas, caminhos, caixas repletas, pregos, pregos, e mais montes de nada-que-prestasse. Ou quem sabe não serviriam para nada a não ser aquela procura lenta, aquela procura cuidadosa que preenchia as tardes e cruzava uma vida murcha e transbordante de velho com uma vida brotando, uma vida ávida de menino. E assim eu-menino de vida ávida ia bebendo dele, e o português de corpo e vida murchos ganhava um tantinho mais de seiva. Aquelas moedas, aquelas tardes, podiam ser somente a paga para que alguém finalmente observasse sua vida acontecendo tímida em intervalos e dias sempre iguais.
(Há umas coisas assim que brilham repentinamente no meio dos entulhos de dentro, umas lembranças inúteis, tortas do uso, inesperadas como aqueles pregos, como aquele velho. Nem sempre é preciso procurar. Às vezes uma mão vacilante nos aponta, imediatamente pegamos, sortudos. E por vezes se tropeça nelas, um acidente, e o instante se alonga, se alonga, escolhido pela memória.)

4 comentários:

  1. ISA(das)BELAs palavras. Sempre curti como consegue transcender a utilização delas, como consegue ir além criando um novo significado pra algumas tão pequeninas e que pensávamos dissessem tão pouco. Você sabe fazer as palavras falarem além. Elas se contentam no seu escrito, tornam-se poéticas e infinitas. E quando você as reúne elas se enchem de histórias, parecem que falam todas ao mesmo tempo de tantas coisas. Um pequeno trecho vira milhares de significados. Sinto isso também quando leio Clarice. Foi bom me reencontrar com seus escritos. Tava com saudade. E as memórias do menino, do velhinho, da sopa, dos pregos, dos achados e dos guardados... ficou belíssimo. Me fez lágrimas. Parabéns pelo blog, que traga ainda mais semeaduras que com certeza serão colhidas com prazeres.

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  2. poça d’água



    sob meus pés as nuvens
    e as estrelas abaixo delas

    além muito além
    da teoria de toda matéria

    - há matéria -

    no infinito meus pés
    estão encharcados

    não de chuva nem de orvalho
    não de suor ou urina do caralho

    nem das lágrimas do corpo
    nem da brisa em sopro

    mas de água da poça
    que ainda há no gramado

    ali onde meus pés
    sobre a grama entre os talos

    se refletem na lâmina fria
    que se converte em poema

    nada se ouve senão os sentidos
    dos sonhos que redivivo

    agora as estrelas
    em alaridos estridentes

    entre tristes dentes me enxaguam
    de lágrima suor e urina que vazam

    - sobre meus pés -

    ali onde o silêncio habita o cosmos
    que neste convés se revela fósforo


    www.escarceunario.blogspot.com


    isabela: as palavras são tuas escravas. percebe-se em tuas memórias, "a proesia".

    parabéns. teu texto é belo como teu nome diz...

    abraços

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