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terça-feira, 11 de outubro de 2011

De se Jogar Fora

Montanhas de lixo, resto esquecido do que não se quis, do que se quebrou, do que não serve. O que já foi útil e jaz agora indigente num lugar feito de abandonos. De tempo em tempo mais e mais das não-coisas entulha-se naquela imensa imundície acumulada, depois de um longo caminho. O tempo repousando imóvel sobre o lixo. O vento sopra criando um redemoinho de papéis amassados, coisa comum. Em meio aos dejetos vez ou outra alguma coisa se move.

Ela abriu os braços num sorriso desdentado: olha! Ninguém olhou. Um toco de batom vermelho cor de sangue. Cavou por quase uma hora no lixo amontoado até brilhar um pequeno pedaço de espelho em que pudesse mirar-se. Os cabelos opacos, as rugas nos olhos, uma cicatriz, uma mancha. Descobria-se pedaço por pedaço (o tamanho do espelho era pouco para ver o rosto inteiro de uma só vez.) Ela olhou, olhou. Mulher já não era. Era uma coisa no meio das coisas, um resto de coisa que já nem coisa era. Tingiu os lábios murchos daquela cor que não escolheria. Aquele pedaço, aquela boca. Mais ajeitadinha assim eu nem sou tanto de se jogar fora, disse, sorrindo e batendo forte no braço da mulher que acabara de sentar ao seu lado. Mostrou a língua comprida num trejeito frenético, o riso escapava dos lábios, muita graça. Nem sou tanto de se jogar fora!, riu alto. A outra não disse nada.

E ela no espelho: a boca serve pra comer, pra beijar, pra falar, rir... e que mais? A sua boca, murcha por falta de uso, agora, vermelha, ria dela mais alto, mais alto do que ela podia, explodia numa gargalhada que caçoava de si mesma, da boca, do vermelho de puta, ela dizia, vermelho de puta!, e ria, ela ria. E quando o cansaço se abateu sobre aquele riso de louca, o silêncio a fez sentir tão coitada, sentada encolhida cheirando a lixo, uma coisa enterrada no meio das coisas. Limpou a cor absurda dos lábios esfregando com força, uma mancha vermelha se fez no dorso das mãos e os olhos baixaram até quase se fecharem para sempre. Mas o olho já não podia chorar. Deixou cair o espelho. Olhou para a outra, sentada ainda no seu tanto-que-fazer, e riu, levantando-se para voltar ao trabalho: nem sou tanto de se jogar fora, sou? Mas a outra não disse nada, compenetrada no pequeno redemoinho trazido outra vez pelo vento, desejando que ele tomasse tudo, que ele crescesse alimentado de tanto resto, que ele se agigantasse feito a sua mágoa, feito o seu não poder querer nada, feito aquele ódio, redemoinho amigo que levasse tudo de uma vez para sempre.

4 comentários:

  1. Tingiu os lábios murchos daquela cor que não escolheria...
    Lindo de chorar!!!!
    Você tem uma maneira especial e linda de traduzir sentimentos. Vi isso em poucos escritores. Beijo

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  2. "...vejo
    vermelhos
    os lábios destes pedaços
    entre as virilhas ferruginosas
    onde farfalha o desejo parco
    e escondido da ave que se move
    leve no ar ultrapassando
    os concretos dos escarcéus
    mais profundos
    lá onde o luar
    de uma madrugada calva
    implora pela cabeleira
    do sol imóvel
    que ao vento ronda
    entre a perdida onda
    até que a manhã
    dobrando a esquina
    encontra a tarde
    na solitária alma
    sob uma miúda garoa
    de tempestades
    de estrelas-rendas-intrigas
    dos sentidos que os dardos
    das retramas alcançam
    nossos cortiços..."

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  3. ao entardecer
    quem consegue se mover
    na beira do lago ?

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