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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Sobre um Conto de Ninar

Era uma vez uma menina que não se chamava. Que ninguém chamava. Ela não tinha nome.
Uma menina que não morava em nenhum lugar. Ela não estava nem permanecia. Ela não tinha vizinhos não tinha pai nem mãe. Uma menina que não nasceu, não foi cuspida, esculpida ou escarrada, nem no lixo nem no mármore.
Era uma vez uma menina que não respirava, que nem o ar lhe passava. Que não dizia nada não ouvia nada. Ela não tinha voz nem ouvidos. Uma menina que não era menina.
Uma menina que não dormia nem acordava. Ela não tinha olhos ela não via nada ela nunca viu um chapéu nem um passarinho nem sapatos nem criança.
Uma menina que não tinha tripas não tinha estômago nem rim nem coração ela não tinha nada. Uma menina que era um monte de nada e de nunca. Nada e nunca dentro dela num monturo, no meio do dentro que não tinha fora.
Era uma vez uma menina que não chorava. Não brotava água dela. Uma menina que não ria. Não tinha força para um espasmo de gargalhada, não lhe saía força.
Uma menina que nunca incomodava.
Ela não tinha mãos nem pés nem cabeça. Uma menina que ninguém via.

Mas pairava, uma presença.

Ela nunca viu a praia nem a rua. Nem a lua e nem o sol. (Será que a praia a rua o sol a lua viam a menina será?)
Ela não tinha nenhum brinquedo nem amigo. Ela não ouviu uma história nem música ela nem sabia o que era música. Ela não ouvia história ela não tinha história nem estava numa. Só nesta, mas agora.
Era uma vez uma menina que não olhava pela janela ela não tinha casa nem quarto e não tinha portas. Ela não ia nem vinha. Iam e vinham e passavam por ela e ela nem. E quem passava nem também.
Ela não comia não tinha dentes nem saliva. Uma menina toda vazia que não parava em pé. Ela nem tinha pés. Uma menina que era uma fome.
Ela nunca gritou nunca gritava. Nada vibrava nela.
Ela não via a cidade se movendo nem roupa no varal nem trem nem bicho nenhum nem nuvem nem corda nem terra nem margaridas nem. Uma menina que era uma coisa. Se você visse, uma coisa! Mas era coisa sem nome sem forma sem cheiro sem nada.
Era uma vez uma menina que não tinha nada. Uma menina que não tinha nome.

E não foi aí que nada.
Não foi nada.
Nada veio.

Era uma vez uma menina-paisagem. Mas os olhos não viam, era paisagem de viagem, que corre e desmancha, desmancha e vai embora, e vai e nunca se pode lembrar.
Uma menina que se confundia com tudo o que não fosse menina.
Foi uma vez. Uma menina que continua aí tão sem, nas outras. Ela não termina.
Era uma vez uma menina que não tinha começo.
Era uma vez a menina que não tinha mais fim.

2 comentários:

  1. Uma menina que continua aí tão sem, nas outras. Ela não termina.
    Lindo! Isa nunca pare de escrever, nunca, nunca.

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