xxxxxxx

xxxxxxx

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O Menino no Homem, o Homem no Menino

Quando percebi eu não tinha mais trejeitos de eu mesmo. Tinha era a feição de meu pai, que se repetia nos vincos da minha cara. Reconhecia um outro no jeito como via a vida toda fracassos, e no virar das mangas da camisa. Saltei para dentro dele foi sem intenção de ser outro. Ou foi ele quem saltou para dentro de mim sem perceber o que escolhia. Agora o cabelo ia pelo vento sozinho ajeitando-se como o dele, e eu esmagando o sonho de meu filho como foi que um dia o pai fincou o pé no meu. Só um menino ele era, meu filho me olhando feito inseto, poderoso mas na desvantagem da sua pequenez. Minha voz como fio de navalha ia direto barítona diminuindo sua estatura. E eu lhe cuspindo pedras no rosto, palavras de pedra, consciente da injustiça e da potência dolorosa de cada uma. Depois de certo tempo eu mastigava as pedras antes de cuspir - elas me doíam na boca mas saíam afiadas riscando o ar até o menino meu filho. Ele se defendia, rosto baixo, e ia catando as pedras como quem um dia pode precisar delas. Para não correr risco de depositar todas no seu peito até pesar demais no seu coração, até o coração ir parar no dedo do pé. Ele podia sair agora. Mas não. Permaneceu ali imóvel a contar as pedras. Nunca fosse malcriado e podia sair sempre. Mas ele não ouvia e era eu. Eu ali nele tão menino sob a sola de meu pé, e o pulso de meu pai se remexendo dentro de meus punhos fechados. Por que não podia ser aquele menino o meu porvir - e não eu a sua foz?

Um comentário: