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sábado, 10 de setembro de 2011

Mas Não Conseguia Pensar em Nada que Fazer

Caiu em si: estava desflorescida.
Quantos anos, quantos meses, quantos anos? Diante do espelho constatava: maçãs descoradas, olhos fundos, lábios murchos. O instante arrastou-se, olhou-se bem. Era preciso desemaranhar cabelos, ideias. Qual seria a razão do tempo, seu motivo para vingar-se assim? Pensou numa revindita à altura. Contra quem? Ridícula. Vincos incontroláveis marcavam a pele do rosto revelando as emoções sem permissão.
O vestido um dia fora novo. Puído, desbotado, descosido, ria-se dela pelo espelho. Ofendeu-se pelo descuido? Apalpando o tecido no corpo parecia tão inofensivo. Mas qual agente do tempo, substância contida no tempo, descostura assim a bainha do vestido, sorrateiro, para que só percebamos de repente? Mas que acontece nessa vida, nessa vida que desdoura impiedosa os cabelos, as unhas, os olhos?
Quando menina, lembrou, quando menina não pensava que seria assim difícil permanecer menina. Quantos meses, quantos anos, quantos, quantos, quantos, quantos. O tempo passado se inflava, orgulhoso. Enorme. Os dias futuros serão curtos. Vez por vez menos minutos, até que um dia todo passe num instante minguado. A passagem das horas caía sobre ela, rápida violenta cortante cachoeira batia em suas costas, rápida! rápida! Faltava-lhe o ar. Que daria tempo de fazer? Nada, nada, nada.
Mas não conseguia pensar em nada que fazer.

Um comentário:

  1. O Tempo da Vida era um rapaz bonito e alegre mas estava cabisbaixo no olimpo. Zeus chegou até ele e indagou o motivo das lágrimas. O Tempo da vida isse que dava um pedaço dele a cada pessoa que nascia na terra e para fazer os órgãos funcionarem os humanos comiam um pedaço dele toda manhã, mas não era isso que o magoava, ele era grande e generoso. Alguns comiam lendo, outros trabalhando, outros fazendo filhos, uns casando e outros traindo. Só que comiam de uma forma tão automática que nunca o percebiam ou olhavam em seu rosto, só notavam sua existência quando ele se enchia do tratamento frio e acabava-se indo embora. Zeus ficou compadecido a animar aquele rapaz. Pensou, pensou, pensou e resolveu lhe dar uma alma gêmea na qual ele iria viver junto até o fim dos tempos, sempre que os humanos comerem o tempo a partir daquele dia iam ingerir junto a outra metade dele. Zeus perguntou se ele estava disposto a pagar esse preço para ser notado, o Tempo da Vida disse que sim. Começaram a pensar em um nome para a nova criação, pensaram em dar a ela o nome de Felicidade, mas já existia uma era sogra do Tempo, pensaram em Tristeza mas essa era prima chata do Tempo também, alguém disse que o Vento combinaria bem com o Tempo, mas lembraram que já era nome de livro . Até que alguém no fundo do olimpo gritou: E se fosse Cicatrizes das Marcas?!Pronto, nascia assim uma das mais longas e duradouras relações do universo, o Tempo da vida e Cicatrizes das Marcas tem até hoje o casamento mais longo da história. Os humanos, como Zeus havia prometido, passaram a perceber o Tempo da Vida pela dificuldade de digerir Cicatrizes das Marcas que vinha automaticamente com ele. Um casal duradouro e colado. Uma alimentação obrigatória que até hoje ninguém conseguiu inventar um regime.

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