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sábado, 6 de maio de 2017

VOCÊ NEM SUSPEITA


O mundo é um grande lobo
e ele está mastigando o meu coração
bem agora
diante de uma porta fechada.

PRIMEIRA ELEGIA


A poesia é uma velha amiga que mora muito longe
de mim.
De vez em quando fazemos contato,
trocamos mensagens breves,
marcamos encontros que nunca acontecem.
A vida é difícil,
estamos cansadas,
não há tempo.
Mas quando ela sabe que estou em desespero
como hoje
Se ela apenas desconfia do meu desespero
cruza os céus e os oceanos
me atravessa correndo em meu auxílio.
Entra sem bater
(ela tem a chave)
e come comigo em silêncio.
Vigilante me observa na madrugada insone
(ela nunca dorme)
Se move pela casa como se habitasse aqui
dentro
há muito tempo
(ela sabe exatamente onde guardo as coisas)
Lava meus pés doloridos
sem fazer perguntas.
Ela não tem pressa.
Ela só vem
cuida de mim
e passa.
(A vida é difícil,
estamos cansadas,
não há mais tempo.)

sábado, 20 de agosto de 2016

Cuidado: Inflamável (o poema)





Ela merece!
Ela merece!
Ela merece!

Obrigada, obrigada e obrigada! Antes de mais nada, agradeço a deus e à costela roubada que ele me cedeu para que hoje eu pudesse estar aqui. Agradeço a família, a escola, a mídia, ao Estado e, claro, a polícia, enfim, a todos aqueles que me ensinaram a ficar calada e me manter assim. Obrigada, obrigada!
Afinal, eu mereço.
Aos quinze anos mereci ser revirada pelo avesso, violada e estuprada por um sujeito possesso, e o alto o preço que paguei foi o meu viço e o silêncio, e esse grito que emudeço quando olho no espelho e quase não me reconheço. Por tudo isso eu agradeço e, sem modéstia, confesso que mereço.

Marias de Mim

Foto: Amanda Charchian


Muito prazer, eu sou Maria. Maria filha de Maria, mãe de deus, Santa Maria, a Virgem. Depois de seu primogênito, ela teve outros rebentos: Tiago, José, Judas, Simão. E teve também muitas filhas. Eu sou uma dessas filhas, anônima, nascida de uma ex- Virgem Maria por vias profanas: a saia levantada sem permissão, o coito rápido e o jato do gozo aliviado de um José indiferente. Passado o tempo, nasci – do pecado, como as demais. Não fui a escolhida de deus para mudar o mundo mas, se ainda assim eu consegui mudá-lo, você não sabe e nem saberá: meu nome não merece citação entre os versos sagrados.
Muito prazer, sou Maria da Graça – sou ela, menina, que vem e que passa, num doce balanço a caminho do mar... Musa muda de canções e sonetos, modelo em pinturas e folhetos, cartazes e comerciais. Maria da Graça faz graça de graça, e a sua desgraça a revista não conta: Maria da Graça: junto! Maria da Graça: quieta! Maria da Graça: senta! Rebola. Senta, senta, senta, mexe, desce, sobe, rala, remexe, sacode a bundinha, sacode a bundinha, faz graça, Maria da Graça, me abraça, merece um carinho!
Muito prazer, sou Maria das Dores. A culpa é de Eva que quis conhecer, que quis entender, esse foi seu pecado marcado e rasgado na carne e no sangue: parirás com dor. É esse o castigo, essa invenção fajuta? Eu gero no ventre uma vida e sinto mexer o amanhã dentro da minha barriga – criar alguém vinda de costela é para os fracos! E na hora do parto eu grito, me mordo, contorço os pecados, eu sangro e percebo: a dor não me machuca mais! E canto, e danço e no auge do esforço pra parir a criança só penso: chupa essa, deus: Eva e eu estamos rindo, estamos rindo da dor! Em nossos braços um rebento morno nos mostra que dentro de nós cabem todas as auroras. E vocês realmente pensaram que temeríamos a dor? Vencemos, Eva, obrigada, Eva, obrigada!

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Poema pro Mundo


Olhar o mundo
como se visto de uma estrela
(o passado espia o futuro):
um pequeno ponto em movimento num infinito em movimento -
como fosse uma bailarina no fundo do mar.
Olhar o mundo
como se visto da plateia:
no silêncio do espaço ecoa a voz de La Negra:
"cambia, todo cambia
cambia, todo cambia..."
enquanto elas giram - elas: a Terra, La Negra, a bailarina.
Olhar o mundo
como se visto de um satélite:
porção água,
porção nuvem,
porção terra.
Azul, branca, multicor
flutua.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

MAL MENOR - Poesia Falada



Este poema é a minha maneira de dizer NÃO à redução da maioridade penal, NÃO ao extermínio lento e gradual da juventude negra e pobre, NÃO à "limpeza" social levada a cabo pelos governos que querem o povo longe dos olhos dos ricos, NÃO à prisão de meninos e meninas cujos atos de violência são o eco das violências a que são diariamente submetidos, NÃO aos "NÃOS" que lhes são gritados cotidianamente a todos os seus desejos de serem melhores.
Minha maneira de perguntar a vocês e à Câmara (cuja maioria dos deputados eleitos pelo povo decidiram pela Redução da Maioridade Penal sob manobras e traição):

 O QUE MERECEM NOSSOS MENINOS?

domingo, 14 de junho de 2015

necropsia do dia de ontem

tem dias em que a gente sente inveja de um pé de alface. sente inveja do cabelo do ralo, da poeira, inveja de tudo o que não precisa ser.
tem dias em que a gente quer tecer com a dor um casulo e só sair quando puder voar. dias em que se está cansado de rastejar.
tem dias em que a gente só quer que a cabeça vire uma bexiga azul, para desamarrar a ponta e sentir esvaziar, murchar, até ser esquecida e varrida no chão da festa.
tem dias em que a gente é vagão que descarrila. peça solta de um brinquedo de pilha. espécie banida da arca a esperar pelo dilúvio.
tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu no topo de uma roda gigante veloz e iluminada que é a cidade.
dias em que as lágrimas só escorrem para dentro e se alojam em algum lugar entre a garganta e o estômago, se aglomeram formando um órgão dolorido e pulsante como um segundo coração.
dias em que não se estanca os pensamentos e as dúvidas vão sangrando pelos poros a cada arrepio de frio.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Cuidado: Inflamável






Meu primeiro poema falado gravado em vídeo, um rebento novo da minha face spoken word.

Cuidado: inflamável. 
Um poema-notícia, um poema-manifesto, um poema-resposta. 
Minha resposta ao deputado Jair Messias Bolsonaro (PP), que no último mês declarou em plenária que não estupraria a deputada Maria do Rosário (PT) porque ela "não merece". Resposta à opressão sofrida cotidianamente por todas as mulheres sob um sistema social patriarcal e machista - dentro das casas, nas ruas, nos transportes, nas páginas, nas telas, nas bocas. Resposta a todos aqueles que supõem que tais violências são "merecidas" por qualquer que seja o motivo. 

NENHUMA MULHER MERECE SER ESTUPRADA.
NENHUMA MULHER MERECE SER ESTUPRADA.
NENHUMA MULHER MERECE SER ESTUPRADA.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Poema em Prefixo

Basta. Desisto do verso.
Agora eu quero o in-
verso. Ou o reverso.
Eu quero agora o anti
verso. O diverso. Quero
o pluri, o multi, o uni
verso.

E depois
depois eu quero
o que vem antes.
Eu quero, eu quero, eu quero
muito mais, além e sobretudo eu
quero o 
sub
verso.

o verso subnutrido
o verso subempregado
o verso subestimado, subjugado
sub
entendido
?
o verso subdesenvolvido,
um tanto subordinado
(mas insubornável)
ordinário, mas sub
versivo.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Canteiro

Foto: Brunno Covello
Nessa maldita marmita sem mistura ele remexe o que atura todo dia / É meio dia, arroz, feijão e agonia requentada já salgada com suor de tanta lida / Restos de ontem, carne fria de segunda e na segunda a sua carne sente o açoite e a ferida / A vida amarga sem tempero e o dia inteiro, o dia inteiro no canteiro semeando a força bruta / “A vida é luta, a vida é luta” já dizia a sua avó / e aquele nó bem na garganta não desfaz mas disfarça a cada passo a vontade de gritar / Farinha seca, terra seca, gente seca, sua terra, sua gente, e a saudade lentamente triturada entre seus dentes / Palita os dentes com os ponteiros do relógio, cospe o ódio, engole o ócio e canta um verso num minuto que sobrar. E num lugar onde ninguém sabe o seu nome ao fim do dia à revelia uma pergunta lhe consome: quem escolhe o que come? quem escolhe o que come? quem escolhe o que come? Em meio a ordens tem que mastigar a vida, digerir toda a comida, as feridas mais doídas, sua classe e sua cor / Uns comprimidos, a tevê e a bebida não dão conta de prender e segurar dentro do peito esse viver doído e estreito de trabalho e desamor / E então / ele vomita. / Ele vomita cada dia então perdido, os pedidos que não fez, os sóis e céus que não viu, as paisagens que perdeu, os minutos que engoliu / Em meio à bile escorreram da sua boca dois mil sóis meio apagados paga dos dias passados que ele nunca viu passar / E foi cuspindo um triste grito sem medida, umas lágrimas contidas, todas as contas vencidas e as que nunca vai pagar / suas olheiras, a xepa do fim da feira, a canseira, a bebedeira, os trocados amassados na carteira, a chuteira pendurada, a bem amada que se foi sem ter porquê / Enxuga os lábios com uns versos amassados que ele fez nos intervalos com a esperança de alguém ler / (Quando menino ele sonhava em ser poeta, mas a vida é incerta, e a mão semianalfabeta sucumbiu ao desatino, vendeu o sonho menino por moedas no batente / Ingenuamente achou que vender os sonhos lhe daria outra vida de comida mais decente / Sem esperança, esqueceu que foi criança e entrou na contradança da máquina de moer gente.) Toca a sineta então na terça como um tiro de escopeta no seu peito de poeta que não foi e nem será / Abre a marmita mirrada de todo dia, arroz feijão e agonia, outro dia a lhe gastar / E num lugar onde ninguém sabe o seu nome é que ele come mas a fome lhe consome ao fim do dia / Dentro do estômago e do peito ele tem fome e não é fome de pão, é fome de poesia. Entre o arroz e um pirão meio mal feito, a barriga, a mente e o peito roncam a dor que carcome / E num lugar onde ninguém sabe o seu nome ao fim do dia em rebeldia uma pergunta lhe consome: quem escolhe o que come? quem escolhe o que come? quem escolhe o que come?

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Acalanto

Aëla Labbé - Childhood in the Woods



Dentro desta insônia um passarinho de asa quebrada, arfando, desfalecendo em mim: o ar entra e sai, o peitozinho frágil sobe e desce rapidamente. Queria ao menos por sobre ele minha palma quente, mas isso afastaria o sono de vez: finjo que não sei, me debato, procuro me enterrar madrugada adentro, ardendo em sono. O som do seu desespero me embala: o ar que entra e sai, entra e sai, entra e sai, o peito que sobe e desce, sobe e desce, inquieto mas constante como a noite que eu quero ter. Subitamente o silêncio: dentro desta insônia um passarinho morto, eu o amo, eu o amo tanto – não amava assim enquanto vivia. Que fazer agora com seu corpinho morno? Estou sofrendo. Que fazer com esse corpinho ainda morno, dentro da noite?

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Notícia






Trabalhadores, manifestantes e pobres 


morrem.



Burgueses, governantes e policiais 


são mortos.





terça-feira, 28 de janeiro de 2014

A Sinfonia Anônima do Muro

Presto. Prestissimo.
[Con Spírito] Lado a lado, um a um. Na longa fileira, homens e mulheres sem nome lado a lado e um a um. Gemendo, gritando, grunhindo, urrando – em silêncio. Transeuntes mudos passando tranquilamente (mentira) do outro lado do muro indo pra algum lugar (mentira) que não sabiam bem nem ouviram (mentira) os gemidos, gritos, grunhidos, urros que do lado de cá ecoaram dentro do silêncio. Quando lado a lado foram caindo um a um sem nome e lado a lado, sempre. As balas flutuando pelo ar, uma a uma, os corpos caindo como trapos sujos, seguidamente, complexa coreografia, um balé, e a plateia que vivia do outro lado do muro não foi convidada para o espetáculo, [Ritardando] que pena.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Do Coração Imortal


Kiva Ford

E quando você pegou e beijou meu coração todo costurado e pisou nele? Quando você pegou e disse: basta. E aí mordeu e mastigou um pedaço dele. Né? Você não lembra. Que usou ele de pedra de estilingue pra me acertar quando eu passei na tua rua. Que eu mandei ele via sedex e você disse que não morava ninguém lá com o seu nome. O pacote voltou todo manchado de sangue. Até o carteiro achou uma crueldade. Quando você puxou o fio do meu coração que eu passei seis anos tricotando. Quando você falou baixinho o meu nome pra ele, e passou uma hora inteira me caluniando. Ele acreditou em tudo e foi-se de mim. Ficou um buraco doído no lugar. Você não se lembra. Que você pegou e riu e enfiou o dedo no buraco e foi mexendo, cutucando o vazio até sangrar. Não lembra. Eu sim, que doeu. E quando você cuspiu nele e disse: meu amorzinho. E eu fui com você. Você cortou ele com garfo e faca e fez de mistura na tua comida. Ele gostou. Mas eu tive fome enquanto via você se fartar: nem nada você me ofereceu.

sábado, 26 de outubro de 2013

Vigília

Para Caio




Não posso fechar  os olhos. Estás diante de mim e dormes, sem inocência. Dormes assim, em estado de segunda pessoa do singular: inspiração deslocada e atemporal. Diante de mim, como se estivesses desde o início dos tempos e indefinidamente fosses continuar, sem sobressalto, sem  culpa – sem envelhecer. Repousas diante de mim cristalizando um estado tão cotidiano, a graça silenciosa e simples de deixar ser. Teu sono me diz: este momento. E eu levanto minha mão insone e cansada e passo lenta e repetidamente sobre a tua cabeça, enquanto não me notas.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Morte Prematura de uma Dúvida

O coração gaguejava lamentos sob o sol a pino. A garganta seca não podia mais. Os balbucios perderam-se pelo caminho. O coração gaguejava sob a solidão a pino – abandono que queimava a pele, rachava os lábios. Era assim. Um homem só neste mundo de milhões.
O coração gaguejava sobre a terra rachada, a boca rachada calava, a garganta seca rachava no silêncio. No estômago só a mágoa que engolira, a raiva que engolira e uma úlcera dolorosa – na falta do alimento, o órgão devorava a si mesmo. No intestino, vermes. Na falta dos restos que a vida lhe negara, que então outras vidas inermes se alimentassem de sua polpa escassa.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Mal Menor




Mas o que o menino merece?
O menor. Aquele sinal de menos, aquele fora de prumo que perambula tão próximo.
O que merece o menor, o menos, o zero à esquerda de deus pai?
Merece pai?, merece pão?, merece ser peão?, ser campeão?
O que o menino merece?
Dois anos a menos, dois anos a mais, tanto faz, nunca mais?
O que o menino merece?
O menino da desmemória, na ladeira. O que te desmerece. O que ele merece?
O que esmorece de fomes e dores na guia. Merece alegria?, da mais barata?, vapor barato?
Merece um trato ou dormir com os ratos, ao relento?
Merece o vento no cabelo ralo?
ou merece descer pelo ralo?
o menino franzino da borda do mundo que acorda imundo no meio da sua tranquila madrugada.

Merece morada?, namorada?, moradia?,
mordida ou lambida de bicho, o menino?
Merece entrar mais cedo no inferno?
merece um terno cortado? um pescoço cortado?
um corte?, uma morte?, um trote a galope?

Já está estragado, o menino?
Já é podre maçã?, pobre maçã?, febre malsã no teu corpo exposto nas ruas?
Não merece moças nuas, sumo de fruta, duas luas?
A podre maçã, pobre maçã, o menino malsão que apodrece vai contaminar os outros meninos da caixa, da cesta, da sexta-feira?
Será que você vai morder essa fruta bichada, e acabar sozinho no meio do nada, tremendo de medo na calçada
igual o menino faz em
toda
madrugada, será?

O que o menino merece?
O que aquele menino merece?
E o teu menino, o que merece?
Merece ser menino?
Ou cada vez mais cedo,
calado,
logo merece ser gerido e gerado entre grades e correntes umbilicais,
no caos,
 caindo no abismo do noticiário diário?
Não merece um canário?, um algodão doce?, uma chance?,
o que ele disse que merece?

E você, que já foi menino?
E o teu menino
o que merece?


O que você já não é



E de repente você olha a ponte
mas o que você vê já não é mais a ponte:
vê a indiferença de quem anda sobre a ponte
vê a necessidade de quem vive sob a ponte
vê o suor na testa de quem construiu a ponte.

E de repente você come o pão
e o que você mastiga já não é o pão:
mastiga a anemia de quem colhe todo o trigo
mastiga a mão ferida que queima e arde no forno
mastiga a dor maldita da fome do teu irmão.

domingo, 16 de setembro de 2012

A Impossível Canção de Ninar


Era uma vez uma menina que não se chamava.
Que ninguém chamava.
(Ela não tinha nome.)
Uma menina que não morava em nenhum lugar.
Ela não estava nem permanecia.
Ela não tinha vizinhos não tinha pai nem mãe.
Uma menina que não nasceu, não foi cuspida, esculpida ou 
escarrada, nem no lixo nem no mármore.
Era uma vez uma menina que não respirava, que nem o ar lhe passava.
Que não dizia nada não ouvia nada.
Ela não tinha voz nem ouvidos.
Uma menina que não era menina.
Uma menina que não dormia nem acordava.
Ela não tinha olhos ela não via nada ela nunca viu um chapéu 
nem um passarinho nem sapatos nem criança.
Uma menina que não tinha tripas
não tinha estômago
nem rim nem coração
ela não tinha nada.
Uma menina que era um monte de nada e de nunca,
nada e nunca 
dentro dela num monturo,
no meio do dentro que não tinha fora.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

A Concepção


Ela já tinha engolido
sapos, risos, esperma e palavras.
Gritaram-lhe:
“Engole esse choro!”
Engoliu
e ele choveu dentro dela.
De madrugada procurou um papel:
tinha lhe brotado um poema.