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quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Mapa de cinzas em tempo real (visão aérea)





josef koudelka, 1968.



Em sobressalto, olhos embaçados, 
implorar ao aparelho a última soneca.
5 minutos. Só mais 5. Mais 5. Mais cinco minutos.

O atraso.


Em sobressalto, olhos embaçados, 
esfregar os olhos embaçados

e lentamente levantar:
segunda-feira de cinzas.

Há o impulso de deitar-se de novo.
Resistir. Respirar.
Esfregar os olhos embaçados.

Abrir as cortinas para convencer as retinas.
Seis horas da matina e lento se levanta um dia
cinza, num tempo cinza,
nuvens cinzas agitam-se e escondem o sol.
Pra sempre. Parece. Impressão.

A pressa.
As pressões.
Pra sempre, parece.

Esfregar os olhos embaçados.
Esfregar um círculo no espelho embaçado.
Aparece ali um rosto cinza. 
Acenar de leve, dizer "sinto muito"
a quem fomos ontem. 
Resistir. 
Respirar.

As chaves brilham prateadas de cinza,
abrir a porta cinza do elevador e apertar
o botão cinza do térreo cinza
enganado por patéticos enfeites natalinos.
Ali, encontrar o jornal cinza
onde um gestor cinza acena fantasiado de gari
e o guri cinza jaz condenado na cena do crime.
Crise. Crime. Crítica, a situação. 
Esfregar os olhos embaçados.

Abrir o portão cinza cheirando a tinta fresca.
Caminhar na calçada cinza, 
atravessar a rua de asfalto cinza quase
preto, quase. 
Passar diante de mais um muro cinza
que cheira a tinta fresca, também.
A cidade inteira cheirando a tinta 
cinza fresca,
tinindo de cinza.
A cidade inteira em chamas, em cinzas
os gritos dos muros
ardem. Calam,
cinzamente.

A cidade é uma mancha cinza.
Debaixo das pontes um degradê cinza são
pessoas. Os gritos
das pessoas ardem
também.
Os gritos das pessoas se afogam
sob o jato de água cinza
da GCM - homens de olhos embaçados
num uniforme cinza
limpam a cidade cinza do lixo humano cinza.
A cidade fica limpinha
tinindo de
cinza (s).

O sol - escondido, pra sempre, parece - 
aquece o asfalto e a água cinza da GCM vai
evaporando lentamente e quase
é possível ouvir os gritos das pessoas 
subindo pelo vapor
aos ouvidos tapados dos transeuntes 
da cidade
e misturando-se a fumaça
cinza dos carros.
Com a fumaça cinza dos carros vem os gritos no vapor cinza da água da GCM e é isso o que entra goela abaixo e pulmão adentro
dos transeuntes
 da cidade.

Resistir.
Respirar.

Tossir o oxigênio cinza meio morto da metrópole apressada. Pressa.
As pressões. As pessoas.
Apertar-se num vagão cinza fedendo a sardinha cinza enlatada.
Os olhos inertes consomem a pequena televisão muda do metrô.
Next Station.
Linha vermelha, amarela, lilás, rubi, esmeralda, coral. 
Nomes coloridos para estações sem cor.
Pedras preciosas no caminho de quem não tem nada.

Caminhar. Esfregar os olhos embaçados.
Sem sobressalto, observar os famintos e sentir
nojo daquela baba cinzenta a escorrer pelos
cantos da boca, pelas guias, pelas ruas,
 pelas
veias.
A baba da fome.
Corre pelo sistema nervoso da cidade cinza
ocupando seus subterrâneos
juntos aos
ratos.
A baba fétida e cinza da fome.

Engolir cafeína para convencer as retinas.
Um dia difícil, o edifício aguarda o início
do expediente, extenuante.
Hesitar, pagar uma fortuna pelo café insosso,
ajeitar os ossos, respirar sem êxito, sonhar o êxodo,
e exilado de si saborear a morte num gole de cachaça depois
do expediente, extenuante, expropriar a vida e explodir tudo
num fogo cinza - diz sem saber de nada o peito devastado
onde dorme um órgão cinza, pulsando e espalhando 
pelo corpo todo uma substância cinza
salgada e pouco espessa feito lágrima. 
O choro, o sapo, o gole, goela adentro e 
pulmão abaixo
dos transeuntes da cidade.


Amaldiçoar o arrastar do tempo,
esperar o trem, mastigar o pão, salivar o fim.

(Dá pra sentir, no silêncio, uns fios de cabelo perdendo a cor.
E o sulco das rugas abrindo picadas rumo à saída,
no mais íntimo da pele,
no mais ínfimo da vida.)

Olhar os policiais vestidos de cinza como seus prisioneiros, 
todos cativos, todos cativos
nessa valsa cinza, nessa vida cinza,
nessa engrenagem.

A massa
cinzenta
adormece
sob o ruído branco 
enquanto o pulso da cidade cinza
expulsa rios e rios de sangue vermelho
inocente
para as margens.

Cuidado: Inflamável - Resposta a Bolsonaro - Programa Manos e Minas da TV Cultura





Participação no programa Manos e Minas, da TV Cultura, em agosto de 2016.

Bandido É Quem Anda em Bando - Spoken Word









Participação no "ZAP! Slam especial - Autores em Cena" - Itaú Cultural - São Paulo, em 2013.
Dedicado a todos os membros do grupo de teatro Cia. dos Inventivos e ao mestre Alexandre Mate.

Riso Perdido - Spoken Word


Participação no "ZAP! Slam especial - Autores em Cena" - Itaú Cultural - São Paulo, em 2013.

Marias de Mim - Programa Manos e Minas da TV Cultura (Spoken Word)


sábado, 6 de maio de 2017

VOCÊ NEM SUSPEITA


O mundo é um grande lobo
e ele está mastigando o meu coração
bem agora
diante de uma porta fechada.

PRIMEIRA ELEGIA


A poesia é uma velha amiga que mora muito longe
de mim.
De vez em quando fazemos contato,
trocamos mensagens breves,
marcamos encontros que nunca acontecem.
A vida é difícil,
estamos cansadas,
não há tempo.
Mas quando ela sabe que estou em desespero
como hoje
Se ela apenas desconfia do meu desespero
cruza os céus e os oceanos
me atravessa correndo em meu auxílio.
Entra sem bater
(ela tem a chave)
e come comigo em silêncio.
Vigilante me observa na madrugada insone
(ela nunca dorme)
Se move pela casa como se habitasse aqui
dentro
há muito tempo
(ela sabe exatamente onde guardo as coisas)
Lava meus pés doloridos
sem fazer perguntas.
Ela não tem pressa.
Ela só vem
cuida de mim
e passa.
(A vida é difícil,
estamos cansadas,
não há mais tempo.)

sábado, 20 de agosto de 2016

Cuidado: Inflamável (o poema)





Ela merece!
Ela merece!
Ela merece!

Obrigada, obrigada e obrigada! Antes de mais nada, agradeço a deus e à costela roubada que ele me cedeu para que hoje eu pudesse estar aqui. Agradeço a família, a escola, a mídia, ao Estado e, claro, a polícia, enfim, a todos aqueles que me ensinaram a ficar calada e me manter assim. Obrigada, obrigada!
Afinal, eu mereço.
Aos quinze anos mereci ser revirada pelo avesso, violada e estuprada por um sujeito possesso, e o alto o preço que paguei foi o meu viço e o silêncio, e esse grito que emudeço quando olho no espelho e quase não me reconheço. Por tudo isso eu agradeço e, sem modéstia, confesso que mereço.

Marias de Mim

Foto: Amanda Charchian


Muito prazer, eu sou Maria. Maria filha de Maria, mãe de deus, Santa Maria, a Virgem. Depois de seu primogênito, ela teve outros rebentos: Tiago, José, Judas, Simão. E teve também muitas filhas. Eu sou uma dessas filhas, anônima, nascida de uma ex- Virgem Maria por vias profanas: a saia levantada sem permissão, o coito rápido e o jato do gozo aliviado de um José indiferente. Passado o tempo, nasci – do pecado, como as demais. Não fui a escolhida de deus para mudar o mundo mas, se ainda assim eu consegui mudá-lo, você não sabe e nem saberá: meu nome não merece citação entre os versos sagrados.
Muito prazer, sou Maria da Graça – sou ela, menina, que vem e que passa, num doce balanço a caminho do mar... Musa muda de canções e sonetos, modelo em pinturas e folhetos, cartazes e comerciais. Maria da Graça faz graça de graça, e a sua desgraça a revista não conta: Maria da Graça: junto! Maria da Graça: quieta! Maria da Graça: senta! Rebola. Senta, senta, senta, mexe, desce, sobe, rala, remexe, sacode a bundinha, sacode a bundinha, faz graça, Maria da Graça, me abraça, merece um carinho!
Muito prazer, sou Maria das Dores. A culpa é de Eva que quis conhecer, que quis entender, esse foi seu pecado marcado e rasgado na carne e no sangue: parirás com dor. É esse o castigo, essa invenção fajuta? Eu gero no ventre uma vida e sinto mexer o amanhã dentro da minha barriga – criar alguém vinda de costela é para os fracos! E na hora do parto eu grito, me mordo, contorço os pecados, eu sangro e percebo: a dor não me machuca mais! E canto, e danço e no auge do esforço pra parir a criança só penso: chupa essa, deus: Eva e eu estamos rindo, estamos rindo da dor! Em nossos braços um rebento morno nos mostra que dentro de nós cabem todas as auroras. E vocês realmente pensaram que temeríamos a dor? Vencemos, Eva, obrigada, Eva, obrigada!

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Poema pro Mundo


Olhar o mundo
como se visto de uma estrela
(o passado espia o futuro):
um pequeno ponto em movimento num infinito em movimento -
como fosse uma bailarina no fundo do mar.
Olhar o mundo
como se visto da plateia:
no silêncio do espaço ecoa a voz de La Negra:
"cambia, todo cambia
cambia, todo cambia..."
enquanto elas giram - elas: a Terra, La Negra, a bailarina.
Olhar o mundo
como se visto de um satélite:
porção água,
porção nuvem,
porção terra.
Azul, branca, multicor
flutua.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

MAL MENOR - Poesia Falada



Este poema é a minha maneira de dizer NÃO à redução da maioridade penal, NÃO ao extermínio lento e gradual da juventude negra e pobre, NÃO à "limpeza" social levada a cabo pelos governos que querem o povo longe dos olhos dos ricos, NÃO à prisão de meninos e meninas cujos atos de violência são o eco das violências a que são diariamente submetidos, NÃO aos "NÃOS" que lhes são gritados cotidianamente a todos os seus desejos de serem melhores.
Minha maneira de perguntar a vocês e à Câmara (cuja maioria dos deputados eleitos pelo povo decidiram pela Redução da Maioridade Penal sob manobras e traição):

 O QUE MERECEM NOSSOS MENINOS?

domingo, 14 de junho de 2015

necropsia do dia de ontem

tem dias em que a gente sente inveja de um pé de alface. sente inveja do cabelo do ralo, da poeira, inveja de tudo o que não precisa ser.
tem dias em que a gente quer tecer com a dor um casulo e só sair quando puder voar. dias em que se está cansado de rastejar.
tem dias em que a gente só quer que a cabeça vire uma bexiga azul, para desamarrar a ponta e sentir esvaziar, murchar, até ser esquecida e varrida no chão da festa.
tem dias em que a gente é vagão que descarrila. peça solta de um brinquedo de pilha. espécie banida da arca a esperar pelo dilúvio.
tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu no topo de uma roda gigante veloz e iluminada que é a cidade.
dias em que as lágrimas só escorrem para dentro e se alojam em algum lugar entre a garganta e o estômago, se aglomeram formando um órgão dolorido e pulsante como um segundo coração.
dias em que não se estanca os pensamentos e as dúvidas vão sangrando pelos poros a cada arrepio de frio.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Cuidado: Inflamável






Meu primeiro poema falado gravado em vídeo, um rebento novo da minha face spoken word.

Cuidado: inflamável. 
Um poema-notícia, um poema-manifesto, um poema-resposta. 
Minha resposta ao deputado Jair Messias Bolsonaro (PP), que no último mês declarou em plenária que não estupraria a deputada Maria do Rosário (PT) porque ela "não merece". Resposta à opressão sofrida cotidianamente por todas as mulheres sob um sistema social patriarcal e machista - dentro das casas, nas ruas, nos transportes, nas páginas, nas telas, nas bocas. Resposta a todos aqueles que supõem que tais violências são "merecidas" por qualquer que seja o motivo. 

NENHUMA MULHER MERECE SER ESTUPRADA.
NENHUMA MULHER MERECE SER ESTUPRADA.
NENHUMA MULHER MERECE SER ESTUPRADA.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Poema em Prefixo

Basta. Desisto do verso.
Agora eu quero o in-
verso. Ou o reverso.
Eu quero agora o anti
verso. O diverso. Quero
o pluri, o multi, o uni
verso.

E depois
depois eu quero
o que vem antes.
Eu quero, eu quero, eu quero
muito mais, além e sobretudo eu
quero o 
sub
verso.

o verso subnutrido
o verso subempregado
o verso subestimado, subjugado
sub
entendido
?
o verso subdesenvolvido,
um tanto subordinado
(mas insubornável)
ordinário, mas sub
versivo.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Canteiro

Foto: Brunno Covello
Nessa maldita marmita sem mistura ele remexe o que atura todo dia / É meio dia, arroz, feijão e agonia requentada já salgada com suor de tanta lida / Restos de ontem, carne fria de segunda e na segunda a sua carne sente o açoite e a ferida / A vida amarga sem tempero e o dia inteiro, o dia inteiro no canteiro semeando a força bruta / “A vida é luta, a vida é luta” já dizia a sua avó / e aquele nó bem na garganta não desfaz mas disfarça a cada passo a vontade de gritar / Farinha seca, terra seca, gente seca, sua terra, sua gente, e a saudade lentamente triturada entre seus dentes / Palita os dentes com os ponteiros do relógio, cospe o ódio, engole o ócio e canta um verso num minuto que sobrar. E num lugar onde ninguém sabe o seu nome ao fim do dia à revelia uma pergunta lhe consome: quem escolhe o que come? quem escolhe o que come? quem escolhe o que come? Em meio a ordens tem que mastigar a vida, digerir toda a comida, as feridas mais doídas, sua classe e sua cor / Uns comprimidos, a tevê e a bebida não dão conta de prender e segurar dentro do peito esse viver doído e estreito de trabalho e desamor / E então / ele vomita. / Ele vomita cada dia então perdido, os pedidos que não fez, os sóis e céus que não viu, as paisagens que perdeu, os minutos que engoliu / Em meio à bile escorreram da sua boca dois mil sóis meio apagados paga dos dias passados que ele nunca viu passar / E foi cuspindo um triste grito sem medida, umas lágrimas contidas, todas as contas vencidas e as que nunca vai pagar / suas olheiras, a xepa do fim da feira, a canseira, a bebedeira, os trocados amassados na carteira, a chuteira pendurada, a bem amada que se foi sem ter porquê / Enxuga os lábios com uns versos amassados que ele fez nos intervalos com a esperança de alguém ler / (Quando menino ele sonhava em ser poeta, mas a vida é incerta, e a mão semianalfabeta sucumbiu ao desatino, vendeu o sonho menino por moedas no batente / Ingenuamente achou que vender os sonhos lhe daria outra vida de comida mais decente / Sem esperança, esqueceu que foi criança e entrou na contradança da máquina de moer gente.) Toca a sineta então na terça como um tiro de escopeta no seu peito de poeta que não foi e nem será / Abre a marmita mirrada de todo dia, arroz feijão e agonia, outro dia a lhe gastar / E num lugar onde ninguém sabe o seu nome é que ele come mas a fome lhe consome ao fim do dia / Dentro do estômago e do peito ele tem fome e não é fome de pão, é fome de poesia. Entre o arroz e um pirão meio mal feito, a barriga, a mente e o peito roncam a dor que carcome / E num lugar onde ninguém sabe o seu nome ao fim do dia em rebeldia uma pergunta lhe consome: quem escolhe o que come? quem escolhe o que come? quem escolhe o que come?

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Acalanto

Aëla Labbé - Childhood in the Woods



Dentro desta insônia um passarinho de asa quebrada, arfando, desfalecendo em mim: o ar entra e sai, o peitozinho frágil sobe e desce rapidamente. Queria ao menos por sobre ele minha palma quente, mas isso afastaria o sono de vez: finjo que não sei, me debato, procuro me enterrar madrugada adentro, ardendo em sono. O som do seu desespero me embala: o ar que entra e sai, entra e sai, entra e sai, o peito que sobe e desce, sobe e desce, inquieto mas constante como a noite que eu quero ter. Subitamente o silêncio: dentro desta insônia um passarinho morto, eu o amo, eu o amo tanto – não amava assim enquanto vivia. Que fazer agora com seu corpinho morno? Estou sofrendo. Que fazer com esse corpinho ainda morno, dentro da noite?

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Notícia






Trabalhadores, manifestantes e pobres 


morrem.



Burgueses, governantes e policiais 


são mortos.





terça-feira, 28 de janeiro de 2014

A Sinfonia Anônima do Muro

Presto. Prestissimo.
[Con Spírito] Lado a lado, um a um. Na longa fileira, homens e mulheres sem nome lado a lado e um a um. Gemendo, gritando, grunhindo, urrando – em silêncio. Transeuntes mudos passando tranquilamente (mentira) do outro lado do muro indo pra algum lugar (mentira) que não sabiam bem nem ouviram (mentira) os gemidos, gritos, grunhidos, urros que do lado de cá ecoaram dentro do silêncio. Quando lado a lado foram caindo um a um sem nome e lado a lado, sempre. As balas flutuando pelo ar, uma a uma, os corpos caindo como trapos sujos, seguidamente, complexa coreografia, um balé, e a plateia que vivia do outro lado do muro não foi convidada para o espetáculo, [Ritardando] que pena.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Do Coração Imortal


Kiva Ford

E quando você pegou e beijou meu coração todo costurado e pisou nele? Quando você pegou e disse: basta. E aí mordeu e mastigou um pedaço dele. Né? Você não lembra. Que usou ele de pedra de estilingue pra me acertar quando eu passei na tua rua. Que eu mandei ele via sedex e você disse que não morava ninguém lá com o seu nome. O pacote voltou todo manchado de sangue. Até o carteiro achou uma crueldade. Quando você puxou o fio do meu coração que eu passei seis anos tricotando. Quando você falou baixinho o meu nome pra ele, e passou uma hora inteira me caluniando. Ele acreditou em tudo e foi-se de mim. Ficou um buraco doído no lugar. Você não se lembra. Que você pegou e riu e enfiou o dedo no buraco e foi mexendo, cutucando o vazio até sangrar. Não lembra. Eu sim, que doeu. E quando você cuspiu nele e disse: meu amorzinho. E eu fui com você. Você cortou ele com garfo e faca e fez de mistura na tua comida. Ele gostou. Mas eu tive fome enquanto via você se fartar: nem nada você me ofereceu.

sábado, 26 de outubro de 2013

Vigília

Para Caio




Não posso fechar  os olhos. Estás diante de mim e dormes, sem inocência. Dormes assim, em estado de segunda pessoa do singular: inspiração deslocada e atemporal. Diante de mim, como se estivesses desde o início dos tempos e indefinidamente fosses continuar, sem sobressalto, sem  culpa – sem envelhecer. Repousas diante de mim cristalizando um estado tão cotidiano, a graça silenciosa e simples de deixar ser. Teu sono me diz: este momento. E eu levanto minha mão insone e cansada e passo lenta e repetidamente sobre a tua cabeça, enquanto não me notas.